Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Pouco depois de jantar, ouvindo Bollani, Bodilsen e Lund

[Texto para a Folha de Sala da Culturgest(1)

 

 

Quem já conheça o Stefano Bollani de tantos outros projectos individuais e colectivos bem diversos entre si, como I Visionari, Bollani Carioca ou JazzFriends for Emergency, sem dúvida ficará surpreso perante a música que o grande pianista transalpino nos vai oferecer no seu concerto desta noite, certamente muito próxima de Stone in the Water, o seu último opus discográfico (gravado há apenas quatro meses para a ECM com o mesmo “trio dinamarquês”) e igualmente vizinha de outros discos gravados em solo absoluto ou em duo e quinteto ao lado de Enrico Rava, seu decisivo mentor, para além do pianista Franco d’Andrea que o orientou em vários seminários. Ou não estivessem aqueles também mergulhados na especial atmosfera das gravações da editora de Manfred Eicher e deles não transparecesse, nomeadamente, um particular cuidado na captação cristalina do piano e restantes instrumentos.

 

O certo é que dificilmente associaríamos este jazz pleno de tranquila emotividade e contida força expressiva ao Stefano Bollani altamente extrovertido e mesmo pleno de humor de outros contextos:  o humor e a natural comunicabilidade que, afinal, com frequência, costumamos associar aos  (tantas vezes) desconcertantes músicos de jazz italianos.

 

Entretanto, o facto é que o novo disco deste trio de Stefano Bollani vai no mesmo sentido dos anteriores CDs que o pianista gravou para a editora dinamarquesa Stunt com Jesper Bodilsen (contrabaixo) e Morten Lund (bateria), um trio que já se assumiu como um colectivo com identidade própria, onde todos sabem ouvir-se até nas mais requintadas pausas e silêncios de uma música que flui, na realidade, como “as águas sobre as pedras”, para adoptar o oportuno jogo de palavras inventado por Colin Buttimer na sua crítica para a BBC a Stone in the Water.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(foto Rosa Reis, durante o sound check)

 

Trazido para o jazz pela mão de Enrico Rava que, em 1996, o desafiou a fazer parte do seu grupo para algumas actuações em Paris, Bollani ter-se-á então revelado aos outros  (e sobretudo a si próprio!)  como um “possível” músico de jazz, ele que tanto já vagueara pelos mundos da música popular de alguns dos mais sonantes nomes da canzonetta italiana.

 

Poucos anos depois, em 2002, foi a circunstância de a organização dinamarqueza do célebre JazzPardesse ano ter convidado Jesper Bodilsen e Morten Lund para completarem, com Stefano Bollani, a secção rítmica do quinteto de Enrico Rava, então premiado, que levou os três músicos a conhecerem-se pela primeira vez, logo tendo descoberto afinidades geracionais, caminhos comuns e vias confluentes que lhes terão tornado mais fácil e natural a aventura de constituir um trio à parte que, desde essa data, tem actuado como tal um pouco por todo o lado e, por sinal, com grande êxito.

 

É certamente uma feliz ventura que a cultura musical e jazzística dos três componentes do trio lhes permita explorar caminhos criativos de características muito diferenciadas, desde o repertório transformador das raízes nórdicas ou italianas com que deparamos nos seus dois primeiros discos para a Stunt às mais abrangentes e multifacetadas páginas musicais que constituem o novo Stone in the Water.

 

 

Stefano Bollani, Jesper Bodilsen, Morten Lund

(foto Rosa Reis, durante o sound check)
 

Em termos puramente instrumentais, Jesper Bodilsen pertence à gloriosa tradição escolástica nórdica, simultaneamente rotundo e sonoro nos graves que guiam o andamento do tempo que o seu contrabaixo determina como tecnicamente ágil e imaginativo no desdobramento dos acordes da harmonia nas regiões mais centrais e agudas do instrumento.

 

Pelo seu lado, Morten Lund, neste contexto musical, prefere a utilização sofisticada das vassouras ao embate mais incisivo das baquetas:  mas independentemente da escolha, sempre acertada, que faça dos seus dispositivos percussivos  (indo até à utilização das próprias mãos),  mostra ser um claro adepto dos jogos e cadências rítmicas mais implícitas e induzidas nos espaços deixados livres pelos seus pares do que pleonásticos e redundantes na justaposição de marcações e acentuações tornadas supérfluas, porque já interiorizadas pelo trio e portanto devolvidas de uma ou outra forma ao ouvinte.

 

Quanto a Stefano Bollani, independentemente das virtudes da técnica apurada, de que apenas faz uso quando estritamente esta contribui para o reforço e justeza do bom gosto de tal ou tal passagem, ele exibe a todo o momento  (jamais a impondo)  uma imaginação melódica e uma sensibilidade harmónica que tornam inteiramente novo aquilo que poderia ser-nos perventura familiar, jamais assim cedendo à preguiça da frase feita ou do cliché vazio de sentido.

 

Se os três talentosos músicos decidirem em pleno palco seguir de perto o line up de Stone in the Water  – e pesem embora as situações totalmente diversas do isolamento em estúdio e da comunhão e partilha numa sala de concerto, certamente repleta –  é muito provável que o leitor–espectador venha a ser positivamente bafejado, como o autor destas linhas, pela beleza radiosa de Dom de iludir  (Caetano Veloso)  ou Brigas nunca mais  (António Carlos Jobim), aqui representando a descoberta apaixonada da grande música brasileira por parte de Bollani.  Mas será arrastado pelas incisivas e nervosas torrentes de notas de Il cervello del pavoneou pela intensa e movimentada vertigem de Un sasso nello stagno  (ambas de Bollani),  embora a segunda enunciada de início de forma singela e quase imperceptível.  E inclinar-se-á perante a beleza indelével de Orvieto ou Edith  (Bodilsen),  a primeira aproximando-se da impetuosidade de Jarrett e a segunda da matriz inconfundível de Strayhorn, ou deixar-se-á mergulhar no impressionismo de Improvisation 13 en la mineur  (Poulenc).

 

Entretanto, não vá o diabo tecê-las!, tudo poderá ser afinal diferente, para tal bastando a forma como “caiu” o jantar aos músicos…

___________________________________________

(1)

       Stefano Bollani  -  piano

       Jesper Bodilsen  -  contrabaixo

       Morten Lund  -  bateria

 

      (Grande Auditório Culturgest, 10.01.10)

 


 

 

 

 

 

 

Atenção:  Já se encontra online o segundo número  (Fevereiro)  de Jazz 6/4, com críticas a discos recentes

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:01
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